INSTINTO: Civilização x selvageria





Instinto ( Instinct, 1999) é um filme norte-americano que conta a história de Ethan Powell ( Anthony Hopkins), um antropólogo que  viaja a uma região da África para realizar pesquisas sobre os modos de vida dos gorilas, mas   acaba vivendo entre eles como uma espécie de " integrante" da tribo. Porém, após ser acusado de crimes ambientais, além de ficar meio parecido com um selvagem ( agressivo e  isolado)  é extraditado para os EUA. Lá ele encontra Theo Culder ( Cuba Gooding Jr.), um ambicioso  psiquiatra que vê no antropólogo um material interessante para seu trabalho, porém as coisas não caminha como ele pretende.  No filme a discussão gira em torno da  relação homem selvagem versus homem civilizado e as misérias que uma vida numa sociedade moderna  pode fazer com um homem.

Portanto,  é um questão de caráter filosófico que coloca em discussão a relação civilizado x selvagem. Seu objetivo é  nos levar a questionar os conceitos relacionados a liberdade, controle e as ilusões de nossas vaidades.Todos estes questionamentos são trazidos pela personagem de Hopkins ( Powell) que abandona a vida civilizada com um carreira  bem-sucedida, uma bela casa, filhos e esposa para viver na floresta solitário com um grupo de símios.  Numa vida em contato com a natureza, onde até os animais respeitam seus "diferentes" É  entre os animais que Powell se sente de fato livre, pois não vê necessidade de acúmulo de riquezas e longe do controle  e da racionalização social.

 Já o homem civilizado poderia ser representado pela personagem de Cuba Gooding Júnior que é o tipico norte-americano bem-sucedido, utilitarista  prático e racional que  acredita no poder da racionalização técnica e cientifica. Porém, é a partir da sua relação com Powell ( que trás cenas muito fortes que propõe discussões interessantes VEJA AQUI)   nota-se uma mudança em seu comportamento, pois Théo começa a perceber a falibilidade  dos meios e técnicas de sua sociedade para prover as necessidades de outros, passando então a criar meios mais justos entre os detentos na prisão em que Powell se encontra.Mas tais atitudes acabam indo de encontro aos interesses governamentais caducos (que representa o XISTEMA).  Mesmo assim ele abandona a relação profissional de cliente e terapeuta para interagir com seu paciente de forma mais humana

Neste caso, isso nos remete as discussões dos pensadores clássicos sobre o estado da natureza  humana, tais como Locke e Hobbes que acreditavam ser o estágio de selvageria, (onde os homens viviam entregues a seus interesses egoístas e  vícios) o responsável pela situação de anarquia que  inviabilizava a vida sociedade e para superar tal situação era preciso que os homens abrissem mão de sua liberdade  a fim de garantir a preservação da propriedade privada, vida e a igualdade entre os homens, tornando possível  outras maiores conquistas para a civilização. Já Rousseau tinha opiniões contrárias sobre o estado de  natureza, pois acreditava que era nele que o homem  encontrava as suas qualidades superiores perdidas com o advento da vida em sociedade que teria o corrompido. Já que teve que abandonar o ambiente acolhedor e livre da floresta., onde  se contentava apenas suprir suas necessidades mais básicas para uma  vida cheia de preocupações com  riquezas, propriedades e status.


    "A menor necessidade um do outro; (...) não tendo nem casa, nem cabanas, nem propriedade de nenhuma espécie, cada qual se abrigava a esmo e em geral por uma única noite; os machos e as fêmeas uniam-se fortuitamente conforme o caso, a ocasião e o desejo (...). Logo que tinham forças para procurar seu alimento."  (ROUSSEAU,1993, p. 58)


Portanto, Powell  é rousseauniano, já que trás a mensagem de que é na  relação com a natureza  que  o homem encontra o verdadeiro sentido para vida. Na verdade é uma crítica as  " selvagerias" da vida cotidiana permeada pelo egoismo, individualismo e valores  distorcidos sobre relações humanas,  as quais muitas vezes são amparadas por  interesses mesquinhos e em  aparências. Mas é bom lembrar que o filme não incentiva a volta do homem as cavernas, mas suas intenção é  discutir  justamente as ilusões nossas de cada dia, vaidades e os problemas que a civilização cria  e que interferem até na vida dos animais. Mas, apesar disto Instinto ainda é só mais um  filme pseudo-filosóficos tanto quanto Advogado do Diabo pois suas críticas mesmo interessantes, são superficiais. Ele me lembra outro filme que pretende tratar do "o mito do bom selvagem"  que é Into The Wild  embora tenha maior profundidade do que esse último.

Acho que ideia de liberdade  e relação com a natureza" é bastante romântica, mas insuficiente para a realidade. Acredito que embora temos nossas escolhas limitadas pela sociedade e seu sistema de  ideias, mas ainda temos oportunidade de realizá-las dentro deste mesmo sistema, principalmente na contemporaneidade, quando estamos experimentando um momento histórico-social de maior liberdade de escolha. Além disso,essa história de " não existe liberdade é o sistema  que determina tudo e blá blá blá"  não passa de um blablado esquerdolóide reducionista  de quinta. Já que  parece ser bem  cômoda para alguns porque retira do sujeito a culpa de suas  próprias ações e coloca no XISTEMA, ( já que tudo é o CAPETAlismo) dai bandido só é bandido porque é pobre, ou porque o capitalismo-consumista-malvado-desigual-e-injusto ensina que ele não é ninguém se não tiver um iPad e não andar com o tênis caríssimo da moda.

Me desculpe, sociedade. Mas sou hobbesiana.


Fontes: 
ROUSSEAU, Jean-Jacques.Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens [1755]; Discurso sobre as ciências e as artes [1750]. São Paulo: Martins Fontes, 1993




0 comentários:

Postar um comentário

Copyright © Oficina Sociológica