INDICAÇÃO DE LIVRO DIDÁTICO DE SOCIOLOGIA

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Muitos alunos e professores me solicitam referências de livros didáticos de Sociologia para aprofundarem os seus estudos ou seriem de auxiliar em suas aulas. Infelizmente, por ser uma disciplina na grade curricular, há poucos livros didáticos bons para serem adotados em sala de aula.

Num outro artigo analisarei os livros didáticos, pois os considero muito parecidos, além de deixarem de fora questões que considero centrais, como é o caso do debate sobre a questão negra no Brasil. Logo abaixo faço apenas alguns comentários.

Eu recomendo, para aqueles que podem comprar, o livro do Prof. Nelson Tomazi "Sociologia para o Ensino Médio" da editora Saraiva e o recente livro que saiu pela Fundação Getúlio Vargas e Editora do Brasil "Tempos modernos, tempos de sociologia" de Helena Bomeny e Bianca Freire-Medeiros. O primeiro foi o que melhor desenvolver os conteúdos programáticos sugeridos nos Parâmetros Curriculares Nacionais. Nele não encontramos nenhuma problema conceitual, apesar do autor em alguns momentos cair numa linguagem acadêmica, distante do mundo dos nossos alunos. As propostas de atividade são boas e criativas. Já o segundo livro acaba cometendo um erro fundamental em sua proposta geral: o divide entre uma "sociologia geral" e uma "sociologia do Brasil". Isso ocorre porque os autores não conseguem dar conta de trabalhar todos os conteúdos fundamentais da Sociologia em torno do filme "Tempos Modernos" de Charles Chaplin. Apenas os "conceitos" gerais são trabalhados em torno do filme. Isso seria óbvio: como encaixar neste filme o conflito de Canudos, fundamental para compreender o Brasil, e por fora de qualquer conceito de modernidade formulado pelos clássicos?












Há também alternativas mais baratas e boas, 

Para os professores, há um livro com reflexões sobre o ensino de Sociologia publicado pela SBS.


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FILME NOIR: MUDANÇAS DE PARADIGMA NA SOCIEDADE NORTE-AMERICANA DO PÓS GUERRA.

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A análise do contexto sócio-cultural em que surgiu uma cinematografia, cuja estética, temática e eixos narrativos, de tão particulares, tornaram-se referência de uma época, é imprescindível para a compreensão do fenômeno chamado filme Noir. Não podemos esquecer que fatores concretos desempenharam papel relevante na construção de uma expressão fílmica norte-americana, mas com matizes que só foram possíveis pelo contexto da recente guerra mundial, as particularidades da literatura americana e a imigração de talentos europeus. O termo filme Noir foi cunhado pelos franceses, carentes de filmes norte-americanos durante a guerra, mas seu conceito foi definido ao longo dos anos, a posteriori, para entender uma estética narrativa e visual, de temática popular e de certa forma folhetinesca., mas já palatável para a classe média americana.

O filme noir, em linhas gerais, caracteriza-se pelas histórias se passarem na cidade e não no campo, são histórias de cunho policial ou detetivesco, cujo protagonista é um detetive durão, há a presença de uma mulher misteriosa, loira, com forte apelo sexual, há enigmas que precisam ser decifrados, e estabelece-se uma relação de cumplicidade e dependência, entre este homem e esta mulher. O elemento central é o crime e na esfera simbólica a recomposição social norte-americana no pós-guerra. A estética é de contraste acentuado de claro/escuro, influência do expressionismo cinematográfico alemão, levado por artistas que imigraram para os Estados Unidos e há sempre uma tenção latente, reforçada pela trilha sonora .
O Noir, do ponto de vista de uma análise mais subjetiva, denuncia a corrupção dos valores éticos e da hipocrisia das relações entre indivíduos e instituições. Também tematiza as emergentes desconfianças entre o masculino e o feminino, desestabilizados pelo novo dimensionamento do papel do homem e da mulher no mercado de trabalho e a imensa rivalidade decorrente disso. Metaforicamente, o crime, elemento fundamental do conflito, é o inevitável destino de uma mente fragmentada, desajustada socialmente, e eticamente ambivalente. E a relação homem/mulher passa a ser uma relação de domínio, transformação do mito do herói, que agora foi tornado um anti-herói, dominado por uma rede de mentiras e ilusões. O Filme Noir é acima de tudo um fenômeno social, que registra simbolicamente o forte crescimento da chamada indústria cultural e as conseqüências da ilusão como combustível da sociedade de consumo. Ilusão de enriquecimento repentino, por exemplo, tema recorrente dessas narrativas.
Três escritores/roteiristas foram fundamentais na transposição para as telas de um universo que refletia este momento de transição de valores em um novo contexto mundial. São eles Dashiell Hammett, Raymond Chandler e James M. Cain.
Durante a década de 30, no século XX, proliferou nos Estados Unidos as chamadas histórias policiais hard-boiled, sobre detetives tipo durões. A história policial sempre foi comum na literatura norte-americana. O criador do gênero foi o poeta, jornalista e escritor Edgar Allan Poe, que em 1841 escreveu um conto que introduziu a figura do detetive e o desvendamento de enigmas, baseado na lógica e no raciocínio. A estrutura do protagonista criado por Poe servirá de modelo posteriormente para o criação do mais famoso detetive da literatura mundial, Sherlok Holmes, feita por Conan Doyle mais de cinqüenta anos depois. Este detetive, de mente brilhante, tornou-se a formula clássica até os anos 30 do século passado. Mas Dashiell Hammett revolucionou a forma do romance policial transformando o detetive num homem comum e acrescentando ação, sexo, violência e escrevendo com uma prosa coloquial, rápida e objetiva. Com Hammett o romance policial passa a ter homens de carne e osso, assassinos de aluguel, policiais corruptos, prostitutas e detetives particulares que são homens normais. Raymond Chandler foi seu seguidor e admirador. James M. Cain também influenciou os novos rumos do romance dito policial, porém focalizando mais o criminoso do que o detetive. Estes autores colaboraram diretamente com a construção do chamado filme Noir.
O filme noir possui vários critérios de identificação. Para efeito de análise exemplificadora, elencaremos dois filmes que são paradigmas das características estéticas, temáticas e narrativas do filme noir: “O Falcão Maltês” de 1941, dirigido por John Huston com roteiro de Hammett e “Pacto de Sangue” de 1944, dirigido por Billy Wilder com roteiro de Raymond Chandler e do próprio diretor, baseado num romance de James M. Cain.
O Falcão Maltês, filme que inaugura esta estética, possui quase todos os ingredientes do filme Noir, não é expressionista na forma, mas lá está o detetive insensível, durão, levemente melancólico, usa mais os punhos que o cérebro, é insolente e destemido. Tem também a presença da mulher fatal, misteriosa, sedutora e insinuante. O jogo de domínio é estabelecido desde o início, como um duelo onde se alternam o enganador e o enganado. É um mundo de duplicidade e dissimulação onde o detetive não sabe em quem confiar. Protegido por um visão cínica e uma misoginia em relação as mulheres nosso anti-herói empenha-se em pôr ordem no mundo. É interessante observar uma das seqüências iniciais, quando o sócio de Sam Spade é assassinado. Primeiro vemos no chão do escritório o nome dos dois sócios, plano claro, projetado pela janela, elemento comum nos filmes Noir; no plano seguinte temos um poste de identificação de rua, quadro escuro; em seguida, no momento da morte do amigo temos ele de terno escuro num fundo escuro, com destaque para sua camisa branca e seu rosto, sua expressão de surpresa e desespero quando em primeiro plano vemos entrar uma arma que dispara. O áudio é forte, a música dramática, e no plano seguinte, destacando a profundidade do campo visual, vemos seu corpo rolando no escuro, para baixo, no abismo negro pontuado de nuvens brancas de poeira. Vemos no plano seguinte um telefone que toca, num quarto também escuro mas cuja luz da janela, provocando um forte contraste, revela uma mão que atende o chamado recortada pela cortina com marcado grafismo. Características marcantes do Filme Noir estão presentes por todo filme: personagens misteriosos, luz geométrica, grafismos e texturas na imagem feitos por contraste de luz, janelas que constroem texturas. A constante presença de janelas como um quadro dentro de um quadro ou como recurso de perspectiva ou recurso gráfico, como por exemplo quando Spade vai observar o corpo do amigo e vemos as janelas dos prédios ao longe marcando o horizonte. A trama do filme é típica do gênero, com uma história intricada, labiríntica, com um enredo que vai se resolvendo nos momentos finais da trama. O Falcão Maltês é um filme que aponta caminhos que se tornarão ainda mais definidos nos filmes posteriores.
Pacto de Sangue é um filme Noir típico. No caso não temos um detetive, mas dois vendedores de seguros que são investigativos, em nada diferindo na astúcia de um investigador tradicional. Temos a mulher fatal, loira, conquistadora, e o envolvimento afetivo intenso entre os dois personagens. Em Falcão Maltês também temos este envolvimento, mais diluído, mas fala-se também de amor e confiança. Temos em Pacto de Sangue a narrativa em primeira pessoa, tradicional do filme Noir, neste filme de intenso suspense e formidável fotografia. Os grafismos da janela são ainda mais acentuados como por exemplo na seqüência em que o dono da seguradora inquiri a recém viúva na presença do assassino e cúmplice amante, e a luz da janela forma uma grade, como de uma prisão, projetando na figura a sombra do seu destino. A apresentação dos créditos iniciais já articula o suspense do filme Noir com a sombra de um homem de muletas se aproximando da objetiva. A opção narrativa de uma história que começa pelo fim também será usada por Billy Wilder no filme Crepúsculo do deuses, e acabou constituindo-se uma das características do filme noir a voz off narrando em primeira pessoa. Pacto de Sangue é uma representação crítica e fatalista da sociedade americana e foi considerado uma subversão estética com relações aos padrões de Hollywood. Deu 7 indicações ao Oscar para o filme de Billy Wilder.
Há especialmente em Pacto de Sangue, e está é uma das características fundamentais do filme, uma amarração de diálogos que remete à literatura B das revistas policiais, um aspecto característico dos diálogos, que são tipicos da literatura Pulp Ficcion. Por exemplo na cena em que o corretor de seguros Walter Neff seduz pela primeira vez a enigmática Phyllis Dietrichson , ou no final, no último diálogo dos dois amigos, quando o acender dos cigarros é simbolicamente invertido. No filme Noir não sabemos nunca quem é a caça e quem é o caçador.





Bibliografia:


Gomes de Mattos, A. C. O outro lado da noite: Filme Noir. Edit. Rocco. 2001
Mascarello, Fernando. Film Noir. In: Mascarello, Fernando (org.) História do cinema Mundial. Edit. Papirus. 2006.
Barros-Lémez, Alvaro. Abraxas en el país de las pesadillas. La narrativa de Dashiell Hammett. Edit. Monte Sexio. 1986


QUANDO A POBREZA TOMA CORPO: ANÁLISE SOCIOLÓGICA DE O CORTIÇO, DE ALUÍZIO AZEVEDO

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Ryanne F. Monteiro BAHIA*
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*Doutoranda em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Ceará. É
mestre em Sociologia pela mesma instituição, onde trabalhou com a representação do pobre na literatura brasileira.


Resumo: O objetivo geral desse trabalho é produzir uma leitura possível sobre a representação do pobre por meio do romance O Cortiço, de Aluísio Azevedo. Questiona-se: De que forma o pobre surge sob a perspectiva Aluisiana? Que construtos simbólicos ela define e fortalece? Apresentamos de forma sucinta a filiação intelectual de Aluísio Azevedo: o naturalismo, assim como seu o campo de estudos. Traçamos um paralelo entre ficção e realidade, através da análise de O cortiço, e a comparação com o contexto histórico ao qual a obra se refere. Como pontos de sustentação teórica e
material para a análise comparativa entre o discurso elaborado pela literatura e discurso produzido pela abordagem historiográfica, utilizamos a leitura de Marx sobre a inserção compulsória do pobre no sistema capitalista por meio da disciplina, e a abordagem de Nicolau Sevcenko e Sidney Chalhoub sobre a vivência da população pobre e o processo de favelização iniciado com a eclosão dos cortiços cariocas.

Palavras-chave: Pobreza. O Cortiço. Disciplina.

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