"ESCRITORES DA LIBERDADE " OU LIBERDADE DOS ESCRITORES?

0 comentários


Por Nildo Viana

O filme Escritores da Liberdade (Richard L, EUA, 2007) é, a princípio, apenas mais um filme norte-americano sobre educação, no qual o mestre dedica sua vida e consegue reverter o quadro caótico da situação escolar existente. Claro que existem filmes diferentes, mas quase todos filmes norte-americanos que abordam a questão escolar no caso das classes desprivilegiadas, desde Sementes de Violência(Richard Brooks, EUA, 1955), passando por Ao Mestre com Carinho(James Clavell, EUA, 1965), entre outros, até chegar ao mais recentes, possuem elementos narrativos semelhantes e repetitivo: O quadro social pré-estabelecido (uma situação escolar caótica, estudantes pobres e marginalizados, conflitos raciais, étnicos e outros, administração escolar pouco envolvida com mudanças e alteração da situação) é rompido com a chegada de um professor abnegado, cujo sentido da vida é a luta pela alteração deste quadro, mesmo custando conflitos familiares, divórcio, etc., e através de uma prática diferenciada junto aos alunos e sem apoio da instituição, consegue resultados favoráveis e realizar a mudança, terminado, como não poderia deixar de ser, em um hapy end holiwoodiano.

O messianismo pedagógico é o ponto forte e como outros filmes semelhantes, este também é baseado em "fatos reais". No entanto, a arte imita a vida de forma muito imperfeita, sendo mais manifestação de concepções, valores, sentimentos, etc., do que retrato fiel da realidade. Este é o caso de Escritores da Liberdade. A professora consegue reverter o quadro através de um forte sacrifício pessoal (teve que trabalhar em outros dois empregos para ter dinheiro para comprar livros e cadernos para os alunos, divórcio, etc.) e isso só é possível se for o sentido da vida para tal professor. Obviamente que a dedicação da professora é louvável, bem como sua ação e os resultados individuais conseguidos. Porém, isso não serve de modelo e de inspiração, não só por causa dos valores, concepções, sentimentos por detrás da prática da referida professora (e do filme), mas também porque os resultados atingem apenas determinadas pessoas, pois para se concretizar em grande escala não só seria necessário outras professoras abnegadas e que fazem da prática educacional o sentido da sua vida, como também ter apoio institucional, políticas educacionais estatais, etc. Nem todos dispostos ao mesmo sacrifício (por exemplo, trabalhar em dois empregos para comprar materiais para alunos, pois é necessário, não só estar disposto a isto como também conseguir tal emprego e não se pode abstrair que a referida professora no filme é oriunda das classes privilegiadas - possuindo acesso a determinado "capital cultural", como diria Bourdieu, além do vil metal - e tem apoio do pai, um juiz, que pode, por exemplo, pagar jantar para os alunos devido seus altos rendimentos). O caso é ainda mais difícil em países como o Brasil, onde o salário do professor é insuficiente para ele sobreviver e além disso não possui recursos, condições e incentivo para formação/qualificação, etc.

Os resultados alcançados, na situação extraordinária apresentada pelo filme é o benefício de apenas uma turma, na qual alunos carentes e que mal terminariam o curso (equivalente ao ensino médio no Brasil) e chegam até a universidade. As outras turmas, as outras escolas, ou seja, milhões de outros, não terão a mesma oportunidade. Logo, não é receita aplicável ao sistema de ensino em sua totalidade. O problema não está na experiência em si e sim em tomá-lo como modelo, o que seria irrealista. Além disso, seus resultados são modestos, atingindo um número limitado de alunos, e que tem por detrás de si determinados ideologemas e valores, entre os quais o messianismo pedagógico, uma concepção individualista de intervenção (a da professora) e da solução de problemas (dos alunos), uma politização limitada e que não ultrapassa o nível da consciência burguesa e não aponta para a transformação social.

Assim, os "escritores da liberdade", escrevem sem amarras, mas também sem uma liberdade autêntica. Estão "livres de" mas não "livres para" (Bloch, Fromm). São indivíduos que são formados socialmente nas classes desprivilegiadas, vivendo em condições de vida precárias e perpassada por diversos conflitos (raciais, étnicos, de classe, etc.), um mundo de violência e criminalidade, e a liberdade que lhes foi oferecida foi a de escrever sobre seu cotidiano (e não entendê-lo, explicá-lo, ver a possiblidade de transformá-lo não apenas em casos individuais ou de um grupo, como se fosse uma "família", sempre excludente dos demais) e cujo conteúdo, no fundo, era a cultura burguesa, que pode ser útil para mostrar o perigo da intolerância e preconceito, mas incapaz de mostrar suas determinações, sua razão de ser, sua base social, que, mesmo um pequeno grupo por via meramente educacional se transforma, se mantém por outros milhões não terem a mesma oportunidade. Museu, restaurante, ascensão social, uma bela viagem do mundo lumpemproletário ao mundo das classes auxiliares da burguesia. Essa é a viagem do filme, daí seus limites, que são os limites intransponíveis da consciência burguesa. Mais uma vez: "ao mestre com carinho". E mais uma vez a afirmação de Marx: "quem educa o educador?" e quem precisa de mestre é porque ainda não conquistou a liberdade. Logo, os escritores da liberdade precisariam de liberdade para escrever e isso não se faz numa sala de aula ou com filantropia e sim na luta, dentro e fora da sala, com ou sem mestre, mas quando atinge um determinado grau, sem mestre e sem carinho pelo mestre, mas sim compartilhamento da luta por seres humanos iguais, sem sentimentos constituídos por relações hierárquicas e por sentimentos hierarquizados, mas sim sentimentos recíprocos por relações humanizadas, companheiros de luta.

MALÉVOLA: EXPRESSÕES ARQUETÍPICAS DO FEMININO

0 comentários





Hellen Pinho Mourão


Logo de início de Malévola são apresentados dois reinos em guerra: Moors, onde vivem criaturas míticas, incluindo a fada que dá nome ao filme, vivida por Angelina Jolie, e o reino dos humanos. Podemos pensar que esses dois lugares representem uma divisão entre o inconsciente (repleto de arquétipos) e a consciência. O filme retrata justamente a busca da consciência coletiva pelo equilíbrio entre os opostos feminino e masculino.

Na terra dos humanos, aliás, não há uma figura feminina expressiva, não vemos rainha, e o rei apenas cita a sua filha, o que demonstra um desequilíbrio entre o feminino e o masculino. Sem esse elemento consciente não há Eros nem relacionamento com o irracional. E onde falta o amor a disputa pelo poder se instala.

O rei incorpora simbolicamente o princípio divino, do qual depende o bem-estar físico e psíquico da nação. Ele pode ser considerado um símbolo do self manifesto na consciência coletiva. Esse símbolo tem necessidade de renovação constante, compreensão e contato, pois, de outro modo, corre o risco de se tornar uma fórmula morta, um sistema e uma doutrina esvaziados de significado, voltada exclusivamente para o exterior.

Por esse motivo é tão necessário escolher um novo rei para Moors. E entre os pretendentes ao trono está Stephan, jovem que foi o amor de Malévola na infância. Entretanto, ele a trai, movido pelo desejo de poder e pela ambição. E assim o elemento feminino ainda não pode ser resgatado – a unilateralidade permanece.

Como protetora de Moors, Malévola pode ser considerada a guardiã do reino do inconsciente, uma representação da anima de Stephan. Segundo o criador da psicologia analítica, Carl Jung, a anima é responsável por fazer a ligação entre o consciente e o inconsciente do homem. Ela é seu guia, seu psicopompo, uma figura arquetípica que contém todas as experiências masculinas e femininas ao longo de toda a história da humanidade – e, por meio dela, o homem pode compreender a natureza da mulher.

Quando Stephan trai Malévola, ela perde a função de guia, de ponte, e fica renegada ao inconsciente, tornando-se não diferenciada. No inconsciente, a fada ganha mais força e se volta contra a consciência unilateral, revelando aspectos primitivos de forma vingativa e amarga. A anima, que representa o aspecto da vida, volta-se então contra a atitude consciente, como um aspecto relacionado à morte. A consciência entra no estado alquímico, o nigredo, a noite escura da alma.

Nessa parte do filme surge uma mudança, e a ênfase está nos personagens Stephan, que se tornou rei, sua filha Aurora, as três fadas, o corvo Diaval e Malévola. Aparece, portanto, uma nova configuração na consciência. Antes, havia um desequilíbrio em que o masculino predominava. Agora, o feminino é predominante e mais forte.

Isso demonstra que o psiquismo sempre busca o equilíbrio compensatório por meio da enantiodromia, uma “lei” psicológica segundo a qual mais cedo ou mais tarde tudo invariavelmente se reverte em seu oposto, o que possibilita flexibilidade e aprendizado.

Nesse ponto do filme vemos uma consciência na fase matriarcal, compensando o momento patriarcal anterior, quando o feminino ferido busca vingança – e mais que isso, seu lugar de direito. Malévola, então, traída e amargurada, deixa de ser uma fada e se torna uma bruxa, a encarnação da Mãe Terrível, que se liga à morte, ruína, aridez, penúria e esterilidade.

Nos contos de fadas, a bruxa, representante dessa mãe cruel, aparece sempre acompanhada por um animal, numa referência ao seu animus, também terrível, que sempre a ajuda. No caso do filme, Malévola é auxiliada por Diaval, um corvo que se transforma em homem.

Essa ave costuma ser associada à bruxaria, magia, azar e mau presságio, mas também à fertilidade, esperança e sabedoria. Porém, o fato de o fiel companheiro se transformar ocasionalmente em homem demonstra uma semente de evolução em Malévola. Seu animus não é totalmente primitivo e, por vezes, lhe serve de consciência.
Como a Mãe Terrível arquetípica, Malévola então se volta contra a criação do rei, Aurora, e exige que lhe seja oferecido um tributo para aplacar sua ira.

Aqui vemos um tema mitológico recorrente: o do sacrifício de uma virgem. Em termos psicológicos, isso significa que para alcançar uma mudança de atitude e um avanço na consciência, antigos padrões devem morrer. Ou seja, para se chegar ao equilíbrio entre masculino e feminino, alguém deve ser submetido aos domínios da bruxa.

Fonte: Mente & Cerebro

NOTAS SOBRE O PRIMEIRO TURNO DAS ELEIÇÕES 2014

0 comentários

[Fernando Perlatto]

Ainda é cedo para construir uma análise sistemática das eleições que ocorreram no domingo em todo o país, mobilizando cerca de cento e quinze milhões de brasileiros. A despeito de problemas pontuais ocorridos no momento das votações, sobretudo nas urnas biométricas, é digna de nota a engenharia institucional que assegura que uma eleição com esta envergadura aconteça em todo o território nacional e que, rapidamente, tenhamos o conhecimento dos resultados que emergem das urnas. Além disso, importa destacar que, não obstante os enormes problemas que atravessam o sistema representativo brasileiro – e o domínio do capital privado é, sem sombra de dúvidas, a maior causa de todos eles –, o país deu mais uma vez um passo importante para a consolidação da sua democracia, assegurando que os eleitores participassem do processo eleitoral em grande número, a despeito do contingente elevado de abstenções, e votos nulos e brancos, que, somados, atingiram, aproximadamente, 28% da população. Dito isso, seguem abaixo algumas notas sobre a conjuntura brasileira pós-eleições, escrita ainda no calor da hora, analisando, de forma geral, os resultados (I) da eleição presidencial e (II) dos pleitos estaduais; (III) a nova configuração do Legislativo brasileiro e (IV) a complexa relação entre as manifestações de junho de 2013 e os resultados das urnas.
(I)
No que concerne às eleições presidenciais, o primeiro aspecto que merece destaque é a derrota fragorosa de Marina Silva. Tendo se consolidado como a maior surpresa do quadro eleitoral, após a morte de Eduardo Campos, a campanha de Marina seguiu uma trajetória ascendente até dias anteriores às eleições presidenciais, quando passou a cair sistematicamente nas pesquisas, obtendo, ao final, 21,3% dos votos válidos, um pouco mais do que a candidata obteve no pleito de 2010. Muitas poderiam ser as razões para explicar a brusca queda da candidata às vésperas das eleições. Em primeiro lugar, vale destacar a desconstrução de sua candidatura muito bem realizada por PT e PSDB, desconstrução esta, diga-se de passagem, bem-sucedida pelas próprias contradições existentes no programa de governo e nos pronunciamentos realizados pela candidata. Da rápida mudança no programa em relação às políticas direcionadas ao público LGBTT e à questão nuclear, passando pela cópia de trechos de programas de outros candidatos, até chegar às posições controversas em relação à votação da CPMF, Marina foi se mostrando cada vez mais frágil e controversa em relação a determinados temas, abrindo novos flancos para as críticas que lhes eram dirigidas.
A isso se somou a estrutura de campanha da própria candidata. Por um lado, os parcos minutos televisivos não permitiram a ela responder aos ataques desferidos por petistas e tucanos. Por outro lado, sua candidatura mostrou fragilidades institucionais – relacionadas ao material a ser distribuído para os estados, às viagens realizadas pela candidata etc. –, agravadas por problemas em relação à composição de palanques em vários estados importantes, como São Paulo e Rio de Janeiro, que causaram problemas para um enfrentamento mais significativo primeiro contra Dilma, quando apareceu como uma ameaça real à atual presidente, e, depois, contra Aécio, na disputa pela vaga daquele que enfrentaria a atual presidente no segundo turno. O próprio PSB se mostrou fragilizado no decorrer da disputa, como ficou evidente na iniciativa de determinados grupos no sentido de promover as eleições internas do partido algumas semanas antes do processo eleitoral, deflagrando disputas e tensões na legenda, que somente foram sanadas a pedido de Renata Campos, viúva de Eduardo Campos. De qualquer maneira, a tentativa da eleição fora de hora evidenciou a fragilidade da estrutura partidária do PSB para dar sustentação a um projeto de governo nacional.
Somem-se a isso erros amadores e importantes que a campanha cometeu, que contribuíram para expor as dificuldades que Marina teria que enfrentar uma vez no governo. Exemplares, no que tange a este aspecto, foram as declarações desencontradas de diferentes apoiadores da chapa, que se contradiziam e, muitas vezes, contrariavam a própria candidata, inclusive em pontos relevantes, relacionados à política econômica e social. Nesse sentido, vale recordar as declarações do próprio candidato a vice-presidente, Beto Albuquerque, dizendo que “Ninguém governa sem o PMDB”, colocando em cheque um dos carros-chefes da candidatura de Marina, vinculado à construção da “nova política”. Para completar, mesmo quando Marina acertou, em uma perspectiva mais geral, ela acabou errando. Explico-me: mesmo quando corretamente divulgou o programa de governo – algo que os dois outros principais candidatos equivocadamente se recusaram a fazer –, o fez de forma precipitada, abrindo novos espaços para a crítica dos adversários, algo que não aconteceu com Dilma e Aécio. Talvez, se tivesse aguardado mais algumas semanas para lançar seu programa, poderia ter se poupado de muitas críticas que lhe foram dirigidas e que impulsionaram o processo de desencantamento em relação a sua candidatura por parte de muitos segmentos.
Contudo, a meu ver, o principal erro de Marina foi ter optado por construir sua candidatura pelo campo conservador e não pela esquerda. Com todas as contradições de seu programa, Marina aparecia como a única candidata capaz de se colocar, pelo menos simbolicamente, como a principal portadora das agendas expostas nas manifestações de junho de 2013, defendendo o avanço na democratização das instituições e o fortalecimento dos bens públicos, como transporte, saúde e educação. Se, por um lado, a retórica vazia contra a “velha política” deixou de lado o radicalismo que a ideia de “democratizar a democracia” poderia trazer, por outro, a defesa da política econômica neoliberal sepultou qualquer esperança de avançar no fortalecimento dos bens públicos. Para completar, Marina preferiu fazer a crítica ao governo Dilma pelo lado mais conservador – a exemplo da defesa da independência do Banco Central e da crítica à corrupção, que passou a dominar seus discursos nas últimas semanas –, deixando de criticá-la pela esquerda, isto é, a partir da mobilização da agenda do meio-ambiente e da sustentabilidade contra o desenvolvimentismo que passou a dominar a agenda da esquerda nos últimos anos.[1] Marina optou pelo establishment econômico, e este, ao ver que Aécio, seu candidato preferido recobrava forças, voltou a apoiá-lo, como ficou evidente nas capas das principais publicações do país nos dois últimos dias antes das eleições, fazendo com que a candidata perdesse apoios importantes que estavam a lhe dar sustentação.
A grande questão que se coloca é o apoio que Marina e o PSB darão no segundo turno e seus impactos reais na disputa política. Para ser coerente com seu discurso, Marina deveria se manter neutra, reforçando a possibilidade da construção de uma “terceira via” no país, que teria na Rede, ainda a ser criada, sua principal escora institucional. Seria criticada no curto prazo, mas sairia fortalecida em um tempo mais dilatado. Contudo, a candidata não resistirá às pressões vindas da imprensa e do campo tucano. Resta saber se seu apoio a Aécio reverterá na transferência de votos de seus eleitores, o que não necessariamente é verdadeiro, sobretudo no que concerne aos seus apoiadores mais à esquerda. Quanto ao PSB, ainda que declare um posicionamento único de apoio a uma das candidaturas, é praticamente certo que o partido se dividirá: o presidente da sigla, Roberto Amaral, dará apoio – ainda que informal – à candidata do PT, de quem sempre esteve próximo. O mesmo deverá ocorrer com outras lideranças, como o governador da Paraíba, Ricardo Coutinho, que enfrentará o tucano Cássio Cunha Lima no segundo turno. Já a outra ala do PSB, representada pelo vice-governador de São Paulo, Márcio França, e pelo prefeito de Campinas, Jonas Donizete, também próximo a Geraldo Alckmin, deverá apoiar Aécio Neves, contando também com o auxílio do ex-tucano Walter Feldman, coordenador da campanha de Marina. Aécio ainda buscará obter o apoio da família Campos, que lhe abriria uma possibilidade de forte crescimento em estados importantes do Nordeste, em especial, Pernambuco.
*****
O resultado de Aécio Neves, que abriu mais de onze pontos em relação a Marina Silva, foi mais surpreendente pelo seu desempenho em relação às pesquisas eleitorais que antecederam à abertura das urnas do que se compararmos com as votações anteriores do PSDB. Na última eleição, por exemplo, o então candidato do partido, José Serra, obteve 32,6% dos votos e, agora, Aécio ampliou para 33,5% os votos dos tucanos. Ainda que tenha roubado alguns votos de Dilma Rousseff nos últimos momentos, o crescimento de Aécio frente às indicações das pesquisas anteriores se explica, em grande medida, pelo realinhamento de eleitores que iriam votar em Marina, mas que, nos dois últimos dias que antecederam as eleições, verificaram, a partir das pesquisas divulgadas, que a candidatura de Aécio se mostrava mais consolidada. Esse realinhamento eleitoral talvez tenha se dado com mais intensidade do que se o inverso tivesse acontecido – isto é, se a candidata do PSB estivesse à frente do candidato tucano –, pois os votos em Marina se mostraram menos consolidados do que aqueles que estavam a sustentar a candidatura de Aécio. Além disso, deve-se considerar o fato de o PSDB ser um partido mais bem estruturado do que o PSB, sobretudo em São Paulo, onde Aécio obteve uma votação estrondosa, vencendo em 88% dos municípios, o que lhe assegurou um movimento de chegada importante.
De qualquer modo, ainda que tenha permanecido cerca de 8% atrás de Dilma, o que importa é que o resultado de Aécio Neves o fortalece na disputa do segundo turno, sobretudo por indicar um crescimento vertiginoso nos últimos dias. Este crescimento, é forçoso reconhecer, se deveu, em grande medida, à própria postura do candidato, que, ao contrário do que desejavam muitos de seus correligionários, não abandonou a disputa nos momentos mais difíceis – recorde-se, por exemplo, um dos debates no primeiro turno no qual Aécio foi completamente ignorado pelas duas outrora principais candidatas, além da entrevista, àquele momento aparentemente bizarra, convocada para dizer que não desistiria do pleito. Além disso, Aécio teve um desempenho muito superior ao de Marina no último debate, da TV Globo, que teve audiência considerável, o que também pode ter contribuído para atrair eventuais eleitores indecisos e trazer para seu campo aqueles que apoiavam Marina sem maiores convicções. Somado a isso, contribuiu para a sua ascensão o apoio implícito e explícito que os meios de comunicação mais influentes deram a Aécio na reta final da campanha, ainda que isto não explique por completo seu crescimento.
Porém, nem tudo são flores para Aécio Neves nesta nova etapa eleitoral. No segundo turno, o tucano terá que ampliar significativamente sua votação onde foi bem sufragado, isto é, no Sudeste, no Sul e no Centro-Oeste, e crescer fortemente no Norte e no Nordeste, expandindo a sua pífia votação nessas regiões (em Pernambuco, por exemplo, Aécio fez 6% dos votos; no Maranhão, não chegou a 12% e no Rio Grande do Norte e na Bahia, não alcançou 20% dos votos válidos). Além disso, há o fator Minas Gerais. Aécio perdeu para Dilma no estado que vinha exibindo em seus programas de televisão e nos debates presidenciais como a principal vitrine de sua administração. Ademais, Aécio viu seu candidato ao governo, Pimenta da Veiga, ser abatido no primeiro turno pelo petista Fernando Pimentel, do PT, com uma diferença significativa de votos. Esta derrota tem tanto o impacto simbólico óbvio, por abrir novos flancos para a crítica ao seu legado como governador em Minas Gerais, quanto o impacto político, uma vez que muitos dos prefeitos mineiros, dependentes dos investimentos estatais, podem não querer se indispor tão abertamente com o governador recém-eleito, Pimentel, o que pode prejudicar a campanha tucana em alguns municípios importantes do estado.
*****
Ainda que não tenha vencido no primeiro turno – como poucos, porém, esperançosos militantes do PT acreditavam – e ainda que tenha obtido menos votos do que em 2010, perdendo cerca de 4 milhões de eleitores, Dilma Rousseff mostrou, ao longo da campanha, ter consolidado um piso importante de votos, os quais, a despeito de todas as críticas direcionadas ao governo, sobretudo nos momentos finais da campanha, não foram severamente abalados. Os 41,6% de votos válidos parecem bem consolidados, sobretudo no Norte e Nordeste, e entre os segmentos mais pobres, beneficiados diretamente pelos programas de transferência de renda, identificados com o que André Singer chamou de “lulismo”. Dilma agora terá o desafio de expandir sua votação nessas regiões – para isso Lula, que teve um papel relativamente discreto no primeiro turno, deve ganhar maior protagonismo – e tentar reduzir a distância de votos nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso e Goiás, que, aparentemente, se consolidam como o grande bastião do “tucanismo”, que assegurou a boa votação de Aécio Neves no primeiro turno, assim como havia ocorrido com a candidatura de Serra em 2010. Também deverá lutar para ampliar sua votação em estados como Pernambuco, que lhe deram votações expressivas na eleição passada, mas que se realinharam em direção à candidatura de Marina Silva, sob o impacto da morte de Eduardo Campos.
Nesse sentido, para assegurar sua vitória, Dilma terá que consolidar seu eleitorado e atrair segmentos que apoiaram a candidatura de Marina no primeiro turno. Destes, ela não conseguirá trazer para o seu campo de votação aqueles eleitores que apoiaram Marina pelo antipetismo ou antidilimismo, cujos votos tenderão a ser deslocados, em sua grande maioria, para Aécio. Resta a Dilma atrair o grupo de eleitores de Marina mais à esquerda, quer sejam aqueles mais próximos ao PSB, quer sejam aqueles se intitulam “sonháticos”, que desejam mudanças mais efetivas na sociedade brasileira. Para atrair estes dois grupos, Dilma deverá reforçar as conquistas obtidas em seu governo – sobretudo aquelas relacionadas à expansão de programas sociais, como o Bolsa Família, Pronatec, o aumento do salário mínimo, a expansão das universidades federais, o PROUNI e o Mais Médicos, que possibilitaram avançar no processo de redistribuição de renda – e ampliar a contraposição com o PSDB. Mas, para convencer os eleitores de Marina mais à esquerda, a candidata não poderá somente falar do passado, comparando os anos de FHC com os anos Lula-Dilma – algo que será importante principalmente para consolidar os votos daqueles que a escolheram no primeiro turno –, mas deverá evidenciar de que maneira seu novo governo poderá avançar na democratização das instituições políticas e na redução da desigualdade social. Ou, dito de outro modo, caberá sim a Dilma reforçar as diferenças entre os governos passados dos dois partidos, mas também expor a contraposição das duas legendas no que diz respeito às mudanças relacionadas ao futuro do país.
*****
Em relação às eleições presidenciais, vale ainda destacar o bom desempenho de Luciana Genro, com 1,55% dos votos válidos, superando o Pastor Everaldo, que obteve 0,75%. Esperava-se, talvez, que Eduardo Jorge pudesse obter uma maior votação pelo seu bom desempenho nos debates, embora não deixe de ser significativo que ele tenha sido mais bem votado do que Levi Fidelix (respectivamente, 0,61% e 0,43%), sobretudo quando se recorda dos embates travados entre os dois candidatos no último debate em torno da união homoafetiva, do aborto e da descriminalização da maconha. O que talvez seja interessante destacar é que dos candidatos com menor expressão pública, aqueles que se identificam ao campo da esquerda (Luciana Genro, Eduardo Jorge, Zé Maria, Mauro Iasi e Rui Costa Pimenta) obtiveram juntos aproximadamente 2,30% dos votos válidos, ao passo que aqueles mais relacionados ao campo da direita (Pastor Everaldo, Levy Fidelix e Eymael) obtiveram, somados, cerca de 1,20%. Para o segundo turno, é certo que o Pastor Everaldo apoiará Aécio Neves, bastando lembrar, para tanto, a “dobradinha” no último debate, da mesma forma que deve ocorrer com Levi Fidelix. Também é provável que Eduardo Jorge apoie a candidatura tucana, uma vez que atuou como secretário de estado de José Serra e tem sido mais crítico ao PT do que ao PSDB em seus pronunciamentos. Ainda que Luciana Genro possa se manter neutra, muitos militantes do PSOL tenderão a votar em Dilma Rousseff, como é o caso de Marcelo Freixo, deputado estadual mais votado no importante colégio eleitoral do Rio de Janeiro, contribuindo para fortalecer o voto à esquerda na candidata petista.
*****
À guisa de conclusão do quadro eleitoral presidencial, o que se pode constatar é que, no segundo turno, Dilma Rousseff entra como favorita, quer pela distância de cerca de oito milhões de votos tiradas em relação a Aécio Neves, quer pelo histórico que evidencia que, desde a redemocratização, nenhum daqueles candidatos à presidência que chegaram ao segundo turno em primeiro lugar perderam as eleições. De qualquer modo, o cenário eleitoral permanece em aberto e, muito provavelmente, teremos uma das eleições mais apertadas dos últimos anos. A polarização PT e PSDB se repetirá mais uma vez nestas eleições e os temas da corrupção, da política econômica e das políticas sociais devem dominar o debate, abrindo para o eleitor a possibilidade escolher entre dois projetos de Brasil que se mostram cada vez mais antagônicos. Independente do resultado que sairá das urnas, pode-se prever nos próximos quatro anos um cenário de uma maior polarização, acirramento e radicalização dos posicionamentos políticos no país, à esquerda e à direita, em torno da herança do “lulismo”.
(II)
Ainda é precipitado traçar um quadro geral do cenário dos governos estaduais, uma vez que os eleitores de vários estados ainda decidirão em segundo turno quem os governará nos próximos quatro anos. De qualquer modo, é importante destacar que o PMDB foi o partido mais vitorioso até o momento em termos numéricos, com quatro governos conquistados (Alagoas, Espírito Santo, Sergipe e Tocantins), seguido pelo PT, com três governos (Minas Gerais, Bahia e Piauí) e PSDB, com dois governos (São Paulo e Paraná). PSB, PDT, PSD e PCdoB elegeram, cada qual, um governador no primeiro turno (respectivamente, Pernambuco, Mato Grosso, Santa Catarina e Maranhão), merecendo destaque especial a vitória do comunista Flávio Dino, derrotando a dinastia Sarney no Maranhão.
Dentre os resultados do primeiro turno, vale destacar que, no que concerne à polarização PT e PSDB, os dois partidos tiveram resultados positivos e negativos. O PT, por exemplo, teve vitórias fundamentais como a de Fernando Pimentel, em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, e de Rui Costa, na Bahia, além do triunfo de Wellington Dias, no Piauí, embora o partido tenha tido derrotas importantes, como o terceiro lugar de Alexandre Padilha, em São Paulo, que não conseguiu crescer como se esperava, e o segundo lugar de Tarso Genro, no Rio Grande do Sul, embora este ainda tenha chances de vencer a eleição no segundo turno. Quanto ao PSDB, o partido teve sucesso em manter a hegemonia de São Paulo após mais de vinte anos, com a vitória em primeiro turno de Geraldo Alckmin, apesar de todas as críticas em relação à seca do estado e ao aumento da violência, bem como as denúncias de cartel no metrô, além de ter vencido o Paraná, com Beto Richa. No que concerne às derrotas, vale ressaltar a perda de Minas Gerais, importante bastião dos tucanos, perdido para a oposição petista, com claras consequências para as eleições presidenciais, como ressaltado anteriormente. Desse quadro, se destaca que Minas Gerais e São Paulo, os dois maiores colégios eleitorais do país, serão os principais espaços nos quais se travarão as disputas entre tucanos e petistas não apenas para no que diz respeito à eleição no segundo turno, mas nos próximos quatro anos.
(III)
O Legislativo brasileiro passou por mudanças importantes após a votação de domingo. Em relação à Câmara dos Deputados, o PT permanece como o maior partido da casa, embora tenha reduzido sua participação de 88 para 70 deputados, conquistando sua menor bancada, desde 2002, quando chegou à presidência da república. O PMDB também reduziu seu número de deputados, ainda que continue mantendo um número considerável de cadeiras, com 66 assentos. Ademais, o partido deve assegurar a presidência da Casa, com Eduardo Cunha, terceiro deputado mais bem votado no Rio de Janeiro. PSDB e PSB tiveram crescimentos expressivos, respectivamente, de 44 para 54 deputados, e de 24 para 34. A estes quatro partidos, somam-se PSD, PP e PR, como os maiores partidos da Câmara, tendo cada qual, simultaneamente, 37, 36 e 34 cadeiras. O PRB cresceu significativamente, passando de 10 para 21 deputados, contando, para isso, com a fragorosa votação do deputado federal mais votado do país, Celso Russomano.
Dos resultados das urnas, vale destacar alguns aspectos importantes. Em primeiro lugar, convém ressaltar que, a despeito da redução de cadeiras por parte do PT, PMDB e de outros partidos da base aliada, caso Dilma Rousseff vença o segundo turno, ela manterá a maioria dos votos na Câmara, com aproximadamente 304 dos 513 deputados, na coalizão governista. Porém, se o vencedor for Aécio Neves, o tucano contará, a princípio, com apenas 128 partidos em sua base aliada, o que, naturalmente, lhe trará maiores problemas de governabilidade. Esse quadro, contudo, deverá se alterar, com um realinhamento dos partidos na casa, inclusive com um provável deslocamento de parte significativa do PMDB para a coalizão tucana. Ademais, Aécio contará com o crescimento do PSDB, que se consolida como a terceira maior legenda da Casa, ultrapassando o PSD. Porém, em uma eventual presidência, Aécio terá que contar com a forte oposição do PT, que se mantém como o maior partido da Câmara dos Deputados.
Independente de quem vença o segundo turno, a construção da maioria para a aprovação de reformas importantes se tornará ainda mais difícil, uma vez que houve uma ampliação significativa da fragmentação da composição partidária na Câmara dos Deputados. Se na legislação anterior havia 22 partidos que compunham o quadro de deputados, na nova legislação serão 28 legendas. Seis partidos que não haviam conquistado votos diretamente em 2010, entraram nesta nova composição (os partidos pequenos, PEN, PTN, PSDC, e os partidos novos, PSD, Solidariedade e Pros). PSL, PRTB e PTdoB terão, cada qual, somente um deputado, ao passo que PEN, PTC e PSDC terão dois legisladores a lhes representar. Nesse cenário de ampla dispersão partidária, reformas como, por exemplo, a reforma política, sobretudo se buscar adotar questões como cláusula de barreira, objetivando reduzir o número de partidos no sistema eleitoral brasileiro, se verão ainda mais obstaculizadas, uma vez que os interesses conflitantes, em um cenário de dispersão, tendem a se impor sobre a construção de consensos mínimos.
Outro aspecto que chama a atenção da nova composição da Câmara diz respeito ao fato de que, apesar da visível crise do DEM, outrora bastião conservador do Congresso Nacional, que obteve uma votação muito baixa para seu padrão histórico (22 cadeiras, sendo que em seus áureos tempos, em 1998, já teve mais de 100 assentos), a Câmara dos Deputados foi composta, mais uma vez, por políticos que têm tido posicionamentos fortemente conservadores, indicando que reformas progressistas associadas a temáticas como descriminalização das drogas e aborto, união homoafetiva e iniciativas voltadas para a ampliação dos processos de democratização política e social, sofrerão ainda mais resistências da bancada conservadora, sobretudo com a ampliação de votos da bancada de empresários, militares e ruralistas. A boa votação de partidos conservadores como PSC, PP e PR, e os ótimos resultados nas urnas de políticos como Marco Feliciano, em São Paulo, e Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro, tendem a fortalecer o cinturão conservador a se opor a avanços mais significativos que possam se articular com as agendas mais emancipadoras, que se desenharam nas manifestações de junho de 2013, sobretudo no que diz respeito a uma reforma política mais ampla.
*****
O Senado manteve o mesmo número de partidos da legislação anterior, ainda que tenha testemunhado mudanças importantes na sua composição. O quadro de fragmentação não é tão grande quanto na Câmara dos Deputados, haja vista que PMDB, PT e PSDB – ainda que reduzindo o número de cadeiras – somam 40 das 81 cadeiras da Casa. O PMDB perdeu um senador, embora mantenha a liderança de cadeiras, com 18 assentos, devendo assegurar, na próxima legislatura, a presidência do Senado, com Renan Calheiros. O PT perdeu um senador e agora terá 12 cadeiras, merecendo destaque derrotas importantes, como a do atual senador Eduardo Suplicy, em São Paulo, e do importante quadro partidário, o candidato Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul. Apesar desses reveses, o PT se mantém como a segunda principal força da Casa. O PSDB, por sua vez, perdeu duas cadeiras e pode se enfraquecer ainda mais a depender dos resultados das eleições majoritárias no segundo turno, embora tenha assegurado a eleição de figuras partidárias com destaque no campo da oposição, como José Serra (São Paulo), Antonio Anastasia (Minas Gerais), Tasso Jereissati (Ceará) e Álvaro Dias (Paraná).
Vale, ainda a menção, no que diz respeito à composição do Senado, ao crescimento do PSB, que saiu de 4 cadeiras para 7 assentos, se tornando o quarto partido em número de senadores. Esse aumento pode conduzir a mudanças de composições importantes na nova legislatura, a depender do posicionamento a ser adotado pelo partido, em um governo Dilma Rousseff ou em um governo Aécio Neves. De qualquer modo, vale observar que, em caso de vitória de Dilma, ela mantém, pelo menos a princípio, a maioria da base aliada, com 58 cadeiras na Casa contra 23 cadeiras da oposição. Importa destacar, contudo, que o quadro no Senado ainda pode se alterar, dependendo dos resultados da eleição nacional – uma vez que Aécio e seu vice Aloysio Nunes fazem, atualmente, parte do Senado – e das eleições estaduais, na medida em que Rodrigo Rollemberg, do PSB, e Eunício Oliveira, do PMDB, podem ser eleitos governadores.
(IV)
Para concluir a análise sobre o quadro eleitoral após o primeiro turno, convém refletir, ainda que de maneira breve, sobre um possível descompasso entre as manifestações de junho de 2013 e os resultados eleitorais, sobretudo no que diz respeito ao Legislativo, que, conforme, destacado acima, apresenta um quadro majoritariamente conservador. Teriam sido as manifestações de junho culpadas por esse resultado? Ou, pelo contrário, elas não teriam absolutamente nada a ver com o avanço dos grupos conservadores sobre fatias importantes do eleitorado brasileiro?
De um lado, a derrota de figuras importantes para a esquerda e a vitória de nomes tradicionalmente ligados ao conservadorismo, quando não portadores de discursos reacionários, tem levado muitos analistas a concluírem que as manifestações de junho de nada serviram para o acúmulo de forças à esquerda ou, pior, que as jornadas de 2013 teriam conduzido o país ainda mais para a direita. De outro lado, outros analistas, mais próximos às agendas das ruas, procuram dissociar os eventos, como se as jornadas de junho nada tivessem a ver com os resultados desoladores das urnas, culpando exclusivamente os partidos de esquerda pela derrota de seus respectivos candidatos. A meu ver, as duas leituras se equivocam em algumas questões.
A primeira intepretação se equivoca, pois parte do pressuposto de que sem as manifestações de junho não teríamos um congresso tão conservador. Essa leitura é errada tanto por partir de um a priori equivocado – a saber, a ideia de que o congresso era progressista anteriormente –, quanto por não perceber que a própria conjuntura brasileira, cada vez mais polarizada, tem favorecido o fortalecimento de opiniões conservadoras, presentes desde o apoio a “justiça pelas próprias mãos” em diversos acontecimentos nos últimos meses, até as declarações homofóbicas de Levi Fidelix, passando pelas manifestações racistas contra os eleitores do Nordeste, que votaram em Dilma no primeiro turno. Ou seja, o discurso conservador tem se tornado mais escancarado na sociedade brasileira nos últimos anos mais como consequência das próprias transformações de inclusão impulsionadas pelos governos Lula e Dilma do que pela eclosão das manifestações de junho, que, a despeito da emergência de discursos conservadores, também contribuíram para escancarar limitações do projeto petista no que disso respeito a transformações mais efetivas na sociedade brasileira. As manifestações podem ter contribuído para radicalizar o discurso do antipetismo e do anti-partido, que levaram ao quadro eleitoral discutido anteriormente, mas o conservadorismo já vinha se consolidando fortemente em diferentes segmentos sociais. Nesse sentido, é um equívoco criticar somente os manifestantes e não perceber que os partidos de esquerda – em especial, o PT – tiveram e ainda têm tido dificuldades enormes para compreender junho e dialogar com algumas das forças progressistas que emergiram naquele contexto.
Quanto à segunda interpretação – esta mobilizada principalmente pelos grupos da extrema-esquerda, que lideraram as manifestações de junho –, ela também é equivocada, pois reifica junho, como se não fosse também necessário pensar criticamente sobre os resultados desses eventos para a correlação de forças no país que emergiram daquele processo. Dessa forma, esses grupos deixam de fazer a autocrítica do que foram aquelas jornadas e de suas consequências para a política brasileira, “lavando as mãos” para os resultados do parlamento. Os resultados eleitorais deveriam sim fazer com que os movimentos de junho repensassem suas táticas e estratégias, passando a refletir com mais sistematicidade sobre a questão da institucionalidade, tão desprezada por determinadas segmentos, mas que se torna fundamental para fazer avançar qualquer agenda mais progressista na sociedade brasileira.
Talvez, as urnas, pelo menos neste primeiro turno, tenham evidenciado mais uma vez algo que vem se desenhando na conjuntura brasileira nos últimos tempos: à medida que as forças conservadoras escancaram suas posições – como resultado do processo de inclusão promovido nos últimos doze anos –, cabe à esquerda institucionalizada e àquela que se fortaleceu nas ruas em junho se repensarem e buscarem a construção de consensos em torno de agendas que façam avançar verdadeiramente os processos de democratização política e social do país. É somente dessa dialética que poderá nascer algo verdadeiramente novo na política brasileira.
[1] Sobre este ponto, ver a excelente entrevista de Eduardo Viveiros de Castro a Eliane Brum, intitulada “Diálogos sobre o fim do mundo”, publicada no jornal El País:
 http://brasil.elpais.com/brasil/2014/09/29/opinion/1412000283_365191.html

Fonte: Revista Pittacus

A CONCEPÇÃO DE INDIVIDUALIDADE EM GEORG SIMMEL

0 comentários

"Crepúsculo", obra de George Grosz, 1922

Por Ana Rodrigues - Doutoranda no PPGS/UFPE

É possível afirmar que o surgimento da sociologia é concomitante ao nascimento do indivíduo da modernidade, que se caracteriza por uma transformação fundamental na relação entre indivíduo e sociedade e por um maior espaço conferido àquele nas relações sociais. Assim, muito embora a consolidação da sociologia como disciplina autônoma tenha sido marcada por um esforço em desvendar as determinações sociais na explicação da vida social, sempre houve um interesse, por parte de seus melhores teóricos, pela análise das dimensões individuais (Martucelli, 2007b).
A análise do indivíduo nunca esteve completamente ausente da sociologia clássica. Mesmo Durkheim, que é considerado um autor holista, reconheceu que as sociedades modernas outorgam um espaço mais amplo ao indivíduo, chegando a afirmar que este havia se convertido na religião da modernidade. Em 1898, Durkheim publicou um texto – “O individualismo e os intelectuais” – em que em que apresenta duas concepções de individualismo: uma negativa, que rende homenagem ao indivíduo particular (egoísmo), e uma positiva, que considera cada indivíduo como representante da humanidade e da razão e rende homenagem à pessoa humana. O autor defende essa segunda concepção, denominada como “individualismo abstrato” por Martucelli e Singly (2012, p. 16).
Mas é sobretudo Simmel que destaca a crescente liberação do indivíduo das antigas dependências históricas nas sociedades modernas, buscando desenvolver uma teoria sociológica do individualismo de maneira menos maniqueísta que seu contemporâneo, Durkheim. Em O indivíduo e a liberdade, Simmel identifica dois tipos de individualismo desenvolvidos na cultura europeia a partir do século XVIII, fundamentados em duas concepções distintas de liberdade. De acordo com Martucelli e Singly (2012, p. 20), o interesse da obra de Simmel é que, diferentemente de Durkheim, ele não estabelece nenhuma hierarquia entre esses dois individualismos e desloca os termos do problema, tentando compreender de que maneira essas duas concepções opostas se articulam.
A primeira noção de individualismo desenvolve-se a partir do século XVIII e tem na liberdade a sua motivação mais íntima. Segundo Simmel (2005, p. 108), a liberdade se torna a bandeira universal por meio da qual o indivíduo protege seus mais variados desconfortos e tenta se autoafirmar perante a sociedade. O ideal da liberdade individual defende a liberação do indivíduo das instituições religiosas, políticas e econômicas que constrangem os potenciais da personalidade de maneira não-natural. É necessário, portanto, libertá-lo de todas essas influências e das desigualdades artificialmente produzidas para que o indivíduo possa desenvolver todos os valores internos e externos de sua personalidade.
Essa concepção de individualismo tinha como fundamento a igualdade universal, seja esta fundada na natureza, seja na razão ou na humanidade. O centro do interesse dessa época é o homem abstrato, que constitui a essência de qualquer pessoa particular, ao contrário do homem historicamente situado, singularizado e diferenciado pelos seus pertencimentos sociais. Com isso, Simmel (2005, p. 109) aponta um contexto de pertencimento prévio e mútuo entre direito, liberdade e igualdade, uma vez que o homem genérico, que representa o núcleo essencial do homem individualizado, aparece em cada indivíduo particular sempre que este seja libertado das forças sociais e desvios históricos que violentam sua essência mais profunda. Para Martucelli e Singly (2012, p. 19), a concepção de individualismo como independência individual, apresentada por Simmel, corresponde ao “individualismo abstrato” de Durkheim.
Simmel (2005, p. 111) também destaca que “esse conceito de individualidade implica, em sentido prático, o laissez faire, laissez aller”, uma vez que se em todos os homens é possível encontrar o homem abstrato como sua essência e se pressupõe o seu desenvolvimento perfeito, então as relações humanas não necessitariam de intervenções reguladoras especiais. No entanto, o autor afirma que não se conseguiu eliminar totalmente as sombras da liberdade nos indivíduos, uma vez que a igualdade manifestava-se de maneira muito imperfeita na realidade.  Ademais, a própria suposição de que após a conquista da liberdade, seguiriam-se novas iniquidades e opressões impulsionou o acréscimo da exigência da fraternidade ao de liberdade e de igualdade, pois “apenas a renúncia eticamente voluntária que esse conceito expressa pode evitar que a liberdade fosse acompanhada do oposto da igualdade” (Simmel, 2005, p. 111).
De acordo com Simmel (2005, p.111), se a consciência geral daquela época sobre a essência da individualidade escondeu essa contradição entre igualdade e liberdade, ela aparece novamente no século XIX. Nesse momento, surge uma segunda concepção de individualismo que se contrapõe à síntese do século XVIII e sua fundamentação da igualdade pela liberdade e vice-versa. Nessa concepção, há uma ênfase na desigualdade e a liberdade permanece como o denominador comum também com o correlato oposto. Contudo, é importante destacar que se, por um lado, o autor aponta a contraposição entre as duas concepções de individualismo, por outro, ele busca apreender sua articulação, mostrando que o individualismo do século XIX pressupõe a concepção do século XVIII, fundamentada na igualdade. Nas suas palavras, “tão logo o eu, no sentimento da igualdade e universalidade, sentiu-se forte o bastante, passou a procurar a desigualdade, mas apenas aquela que surgia como uma lei interna” (Simmel, 2005, p. 112).
Simmel (2005, p. 112) afirma ainda que após a libertação dos indivíduos de suas antigas dependências históricas, o movimento segue adiante e estes indivíduos tornados autônomos buscam agora distinguir-se entre si. Nesta segunda concepção, o importante não é o indivíduo como tal, mas sim o que este tem de único e distinto. Desse modo, intensifica-se a procura moderna pela diferenciação, a busca do indivíduo por si mesmo, por um ponto de solidez e ausência de dúvidas, que se torna tanto mais necessária quanto maior a complexidade da vida. E essa busca não pode ser encontrada em instâncias externas à própria alma. Para o autor, as relações com os outros são apenas estações no caminho em busca de si mesmo. Tais relações são importantes seja porque o indivíduo se sente igual aos outros e sozinho com suas próprias forças, precisando do apoio desse tipo de consciência, seja porque os outros são importantes na comparação e visão da própria singularidade e individualidade do próprio mundo.
Essa concepção de individualismo encontrou seu filósofo em Schleiermacher, para quem não apenas a igualdade, mas a diferenciação é uma obrigação ética. Simmel (2005, p. 113) denomina esse individualismo de qualitativo em oposição ao individualismo numérico do século XVIII e afirma que o romantismo alemão foi o primeiro canal por meio do qual essa concepção permeou a consciência do século XIX.
Segundo Simmel (2005, p. 114), a primeira concepção de individualismo é o produto do liberalismo racional da Inglaterra e da França, enquanto a segunda é uma criação do espírito germânico. Embora em constante tensão, o autor afirma que essas duas grandes forças da cultura moderna procuram um equilíbrio nas mais diversas esferas. No entanto, até o século XIX, os dois tipos de individualismo só foram unidos na constituição de princípios econômicos. Nesta esfera, a concepção da liberdade e da igualdade fundamenta a livre concorrência, enquanto a personalidade diferenciada é o fundamento da divisão do trabalho. Simmel (2005, p. 115) adverte que as consequências “da concorrência sem peias e da especialização da divisão do trabalho para a cultura interna não se deixam apresentar exatamente como o maior benefício dessa cultura”.
A análise de Simmel do individualismo não se restringe ao esboço da emergência de diferentes ideias filosóficas e suas respectivas raízes culturais, dado que ele também busca apreender as mudanças sociais que possibilitaram seu surgimento. Na Filosofia do Dinheiro, Simmel mostra de que maneira o desenvolvimento de uma economia monetária possibilitou uma margem crescente de liberdade individual e, consequentemente, um maior domínio da consciência pelo indivíduo.
De acordo com Simmel (1977, p. 348), o desenvolvimento de uma economia monetária conduziu a uma maior objetividade das relações sociais. Na medida em que o dinheiro se torna o mecanismo universal de troca, ele permite determinar a igualdade exata dos valores de troca, devido às suas propriedades de divisibilidade e aproveitabilidade ilimitada. Como ele pode ser somado e dividido de maneira ilimitada, ele permite a adoção de um critério quantitativo na apreensão dos produtos, reduzindo toda qualidade e individualidade à questão: “quanto?”. Portanto, nos mais diversos fenômenos, dentro da economia monetária, os objetos tornam-se cada vez mais indiferentes em sua singularidade e individualidade, carentes de essência e intercambiáveis (Simmel, 1977, p. 361).
O princípio da objetividade adotado pela economia monetária também conduziu a uma transformação da forma real que tomam as relações de dependência, possibilitando o desenvolvimento da liberdade individual. Simmel (1977, p. 338) explica que, enquanto nas formações sociais anteriores, a vinculação e o direito do senhor abrangiam não apenas o produto do trabalho como também a personalidade do trabalhador, a economia do dinheiro conduz a uma separação completa da personalidade como tal frente às relações de dever. A adoção do princípio da objetividade frente ao da personalidade conduz a uma transição em que o limite do tempo de trabalho começa a ser determinado e, em seguida, não se exige mais um tempo e uma força de trabalho determinados, mas um produto determinado do trabalho. Desse modo, não há uma subordinação a outra personalidade subjetiva. O dinheiro despersonaliza as relações.
Do mesmo modo, no sistema de trabalho assalariado, o trabalhador adquire certa independência frente ao empresário isolado, devido à frequência com que a economia monetária muda o empresário e pela possibilidade múltipla de eleger ou substituir a este que a forma do salário garante ao trabalhador, concedendo-lhe uma liberdade completamente nova, dentro de suas ataduras. Contudo, Simmel (1977, p. 359) destaca que a liberdade do trabalhador é também a liberdade do empresário, que não existia nas formas de trabalho mais vinculadas. Em sentido social, a liberdade, como a ausência de liberdade, constitui uma relação entre seres humanos.
Simmel (1977, p. 352) adverte que a economia monetária não possibilitou apenas uma liberação do indivíduo, mas também uma configuração especial das relações de dependência mútua que, ao mesmo tempo, deixa margem para um máximo de liberdade. Isso porque essa economia estabelece uma série de vinculações, inexistentes nas formações econômicas anteriores. A dependência de outras pessoas alcançou esferas completamente novas, devido à crescente divisão moderna do trabalho e a especialização das faculdades humanas que a acompanha, além do aparecimento de técnicas mais complexas e de um número maior de intervenções para atender mesmo às necessidades mais elementares. Mas o outro lado do processo de divisão do trabalho é justamente que, à medida que o sujeito se torna dependente de um número crescente de prestação de serviços, ele se torna independente das personalidades que se encontram por trás destes, porque só permite a ação de uma parte das mesmas, “excluindo por completo as outras cuja conjunção é precisamente o que dá lugar à personalidade” (Simmel, 1977, p. 354).
Desse modo, a economia monetária facilita a separação do elemento pessoal das relações entre os seres humanos através de sua essência objetiva. Se o homem se torna, por um lado, mais dependente de uma grande quantidade de provedores, ele é muito mais independente da pessoa isolada e concreta que lhe presta um serviço e que pode ser substituída com facilidade e frequência. Em consequência disso, o indivíduo recebe como recompensa “a indiferença em relação com as pessoas e a liberdade de intercâmbio com elas” (Simmel, 1977, p. 356).
Para Simmel (1977, p. 357), esta é a situação mais favorável para produzir a independência interior e o ser-para-si individual. É só a partir do exercício desta liberdade, que é possível desenvolver a individualidade, de ampliar o núcleo do eu por meio da vontade e sentimento individuais. O autor destaca que tal individualidade não pode ser percebida como uma ausência de relações, mas, precisamente, como uma relação muito determinada com os demais. Uma relação que pressupõe, como toda relação, elementos de aproximação e elementos de distanciamento. Segundo ele, a configuração mais favorável de ambos os elementos para explicar a independência tanto em sua qualidade de fato objetivo como de consciência subjetiva parece se manifestar quando se dão relações extensas com outros homens, dos quais foram distanciados todos os elementos que são de natureza individual. Nas suas palavras,
“a causa e o efeito destas dependências objetivas, nas quais o sujeito como tal é livre, residem na trocabilidade das pessoas; na troca voluntária dos sujeitos ocasionada através da estrutura da relação se revela aquela indiferença do elemento subjetivo, que leva o sentimento da liberdade” (Simmel, 1977, p. 358).

A personalidade surge, assim, como a contraposição subjetiva das circunstâncias de dependências objetivas e de indiferença impostas pela economia do dinheiro que conduz a um largo processo de diferenciação social, do qual resulta a acentuação da importância do eu, por um lado, e da coisa, por outro. Simmel (1977, p. 361) afirma que o surgimento da personalidade é ao mesmo tempo o processo de surgimento da liberdade, uma vez que tudo o que chamamos de personalidade – a unidade de elementos psíquicos, sua concentração em um só ponto, a insubstituibilidade de sua essência – implica também a independência e exclusão de todo o exterior e o desenvolvimento de acordo com as leis da própria essência – a que se chama liberdade.
Segundo Simmel (1977, p. 362), em ambos os conceitos se manifesta um ponto último e profundo da essência do indivíduo que enfrenta a todo objetivo, exterior e sensorial, que se origina tanto fora como dentro da sua própria natureza. Tanto o conceito de liberdade quanto o de personalidade constituem uma “expressão do fato de que aqui surgiu a contrapartida do ser natural, contínuo e objetivamente determinado, contrapartida cuja originalidade não somente reside na aspiração a uma posição especial frente a ele, senão também na busca de uma conciliação com ele mesmo”.
Além da economia do dinheiro, o crescimento dos círculos sociais, que acompanha o seu desenvolvimento, é percebido por Simmel como uma importante transformação para o aumento da liberdade e da individualidade. O autor tenta compreender de que maneira a personalidade se acomoda nos ajustamentos às transformações sociais advindas com a vida na metrópole, lugar em que essa economia se desenvolve. Simmel (1973, p. 12) busca apreender as condições psicológicas criadas pela vida na metrópole, tendo em vista que a mente humana procede a partir de discriminações entre a impressão de um dado momento e o que o precedeu, e a metrópole extrai uma quantidade de consciência maior que a vida rural. O autor afirma que a base psicológica do tipo metropolitano de individualidade consiste na intensificação de estímulos nervosos, resultantes da alteração brusca e ininterrupta de estímulos interiores e exteriores.
Diante do ritmo de vida e da rápida convergência de imagens em mudança na metrópole, o indivíduo metropolitano desenvolve uma consciência elevada e uma predominância da inteligência. Segundo Simmel (1973, p. 13), a reação aos fenômenos metropolitanos é transferida a um órgão menos sensível e bastante afastado da zona mais profunda da personalidade, enquanto a intelectualidade assume a preservação da vida subjetiva contra o poder avassalador da vida metropolitana.
Ademais, as relações emocionais íntimas entre pessoas fundadas em sua individualidade, comuns nos pequenos círculos, dão lugar a relações racionais e anônimas, em que se trabalha com o homem como um número, um ser que é em si mesmo indiferente. Simmel (1973, p. 14) afirma que essa atitude “prosaicista” está tão inter-relacionada com a economia do dinheiro que não se sabe se foi a mentalidade intelectualística que primeiro criou essa economia, ou se esta última determinou a primeira.
O autor também destaca que o caráter objetivo da economia do dinheiro – com suas características de exatidão, calculabilidade, etc. – são introduzidos à força pela complexidade e extensão da existência metropolitana, de modo que ele não está apenas intimamente ligado a essa economia, mas também conduz a uma objetivação crescente de conteúdos existenciais. Desse modo, esse caráter permeia o conteúdo da vida e favorece a exclusão daqueles impulsos irracionais e instintivos, que tentam determinar o modo de vida de dentro, ao invés de receber a forma de vida geral de fora. Na Filosofia do Dinheiro, Simmel (1977, p. 347) destaca que é justamente essa capacidade de observação objetiva, de prescindir do eu, que separa os homens, no puramente psicológico, das ordens animais inferiores. E é isso o que impulsiona o processo histórico ao seu resultado possivelmente mais nobre e à formação de valores em que os interesses de uma parte não exclui o outro, senão abre caminho a ele.
Simmel (1973, p. 15) afirma que não há fenômeno psíquico que tenha sido tão incondicionalmente reservado à metrópole quanto a atitude blasé, que expressa a relação entre uma estrutura da mais alta impessoalidade e, em contraposição, uma subjetividade altamente pessoal. Em princípio, essa atitude resulta dos estímulos contrastantes que são continuamente impostos aos nervos. Mas o autor acrescenta que essa fonte fisiológica da atitude blasé é acrescida de outra que flui da economia do dinheiro e corresponde ao embotamento do poder de discriminar toda qualidade dos objetos, de modo que nenhum objeto merece preferência sobre outro. Para o autor, “esse estado de ânimo é o fiel reflexo subjetivo da economia do dinheiro completamente interiorizada” (Simmel, 1973, p. 16).
Simmel (1973, p. 17) explica que na atitude blasé, os nervos encontram na recusa a reagir aos incessantes estímulos a última possibilidade de acomodar-se ao conteúdo e à forma de vida metropolitana. Assim, a autopreservação da personalidade é alcançada ao preço da desvalorização de todo mundo objetivo; uma desvalorização que no final arrasta a personalidade da própria pessoa para uma sensação de igual inutilidade. Além disso, sua autopreservação em face da cidade exige dele um comportamento de natureza social negativa, como a reserva. Essa reserva assume a forma de um fenômeno mais geral da metrópole, conferindo ao indivíduo uma quantidade e qualidade de liberdade pessoal que não tem analogia sob outras condições.
Esse aumento da liberdade está relacionado ao crescimento dos círculos sociais. Segundo Simmel (1973, p. 19), os pequenos círculos permitem apenas relações restritas com os outros grupos e não podem permitir a liberdade individual e o desenvolvimento interior e exterior próprios, uma vez que guardam as realizações, a conduta de vida e a perspectiva do indivíduo. Mas à medida que o grupo cresce, a unidade interna do grupo se afrouxa, bem como a demarcação original contra os outros grupos, possibilitando relações e conexões mútuas. Assim, o indivíduo ganha liberdade de movimento, ao mesmo tempo em que adquire uma individualidade específica, decorrente da divisão do trabalho tornada necessária com o crescimento do grupo.
O caráter extensivo da metrópole para além de suas fronteiras físicas e a independência individual contribuem para que o aspecto quantitativo da vida seja transformado em traços qualitativos de caráter. Simmel (1973, p. 21) afirma que “o homem não termina com os limites do seu corpo ou a área que compreende sua atividade imediata. O âmbito da pessoa é antes constituído pela soma de efeitos que emana dela temporal e espacialmente”. Deste modo, a liberdade que acompanha este processo não deve ser entendida apenas no sentido negativo, como liberdade de mobilidade. O ponto essencial é que a particularidade e incomparabilidade que todo ser humano possui sejam expressas de alguma forma na elaboração de um modo de vida. A liberdade no sentido de o indivíduo estar seguindo as leis de sua própria natureza só se torna óbvio para ele e para os outros se as expressões dessa natureza diferirem das expressões de outras. A pessoa se volta para diferenças qualitativas, buscando atrair de alguma forma a atenção do círculo social, explorando sua sensibilidade e diferenças. Do mesmo modo, a crescente divisão do trabalho na cidade moderna compele o indivíduo a se especializar em uma função na qual não possa ser prontamente substituído por outros. Esse processo conduz a uma diferenciação crescente (Simmel, 1973, p. 22).
Portanto, a individualidade para Simmel decorre de condições externas, como o pertencimento a diversos círculos sociais separados entre si e, ao mesmo tempo, do trabalho interior, íntimo. Apesar da grande contribuição teórica de Simmel para pensar o crescente processo de individualização na modernidade, ele foi praticamente esquecido depois da Primeira Guerra Mundial e maioria dos sociólogos abandonou a ênfase dos clássicos na importância das formações psíquicas particulares dos indivíduos na explicação da vida social.
Contudo, Martucelli e Singly (2012, p. 23) destacam que a concepção de individualidade desenvolvida por Simmel se torna central quase um século depois para uma corrente sociológica denominada de “Sociologia do Indivíduo”, que defende a necessidade de uma nova abordagem teórica à escala individual, haja vista a intensificação do processo de individualização na sociedade moderna, a partir da segunda metade do século XX – o que muitos teóricos chamam de segunda modernidade. Esses teóricos afirmam que, diante desse processo, o indivíduo não pode ser mais definido apenas pelos vínculos herdados e pelas determinações sociais. Faz-se necessário prestar mais atenção no trabalho que o indivíduo realiza sobre si mesmo. Simmel torna-se um dos principais precursores dessa corrente pela sua ênfase, por um lado, na crescente divisão interna dos indivíduos e a independência entre as diversas partes de seu ser e, por outro lado, na existência de um conflito interior entre essas partes (Martucelli e Singly, 2012, p. 34).

Referências bibliográficas

MARTUCELLI, Danilo (2007a). Cambio de rumbo: la sociedade a escala del Individuo. Santiago: LOM Ediciones.
____________. (2007b) Lecciones de Sociología del Individuo. Santiago.
MARTUCELLI, Danilo & SINGLY, François de (2012). Las Sociologías del Individuo. Santiago: LOM Ediciones.
SIMMEL, Georg. (1977). Filosofia Del Dinero. Madrid: Instituto de Estudios Politicos.
_____________(2005). “O Indivíduo e a Liberdade”. In: J. Souza e B. Oelze (Orgs.) Simmel e a Modernidade. Brasilia: Ed. UnB.
____________ (1973). “A metrópole e a vida mental”. In: VELHO, Otávio Guilherme (Org.) O fenômeno Urbano. Rio de Janeiro: Zahar Editores.
___________ (1950). “The Stranger”. In: WOLF, Kurt H. The sociology of Georg Simmel. New York, Knickerbocker Printing Corp.
Copyright © Oficina Sociológica